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A música concreta. Infantilidade científica?

Edgar Varése, Pierre Schaeffer, Pierre Henry, a composição musical em blocos, a fita magnética e o prelúdio do futuro


Monique Oliveira
synthorchestra.org


Enquanto, em tese, e de forma um tanto tecnicista, convencionou-se colocar a música eletrônica como qualquer música produzida por equipamentos eletrônicos. Pode-se derivar a mesma definição para a música concreta. Ela é isso: concreta. Gravam-se fragmentos sons. Estes, por sua vez, são combinados entre si; e, daí extrai-se uma composição.

Mas, obviamente, que nenhum movimento musical se estabelece somente por sua definição técnica e a música concreta surgiu entre a década de 40 e 50 protagonizada por princípios já postulados – falamos aqui sobre o dodecafonismo e o atonalismo - e alguns de seus atores: Pierre Schaeffer, Pierre Henry e Edgar Varése.

O engenheiro francês Schaeffer foi o mentor do movimento que ele mesmo definiu em 1957, como sendo um manifesto por composições que utilizam “materiais de uma coleção existente de sons experimentais, utilizando-se de fragmentos já existentes concretamente e considerados como objetos sonoros.”

Montou com o também francês Pierre Henry o Groupe de Recherche de Musique Concrète (GRMC). Escreveram, juntos, a Symphonie pour um homme Seul, utilizando a fita magnética e, por meio de colagens, montavam suas composições – tocando-as de trás pra frente, aumentando e reduzindo a velocidade, cortando o início de frases musicai ou transformando-as em anéis.

Pierre Schaeffer - "Etude Aux Chemins De Fer" (1948)


Varése fez seu próprio caminho, dirigiu a New Symphony Orchestra, passou boa parte da sua vida nos Estados Unidos e fez do timbre e ritmo seu pilar com um material básico de notas que não se advém lógica e temporalmente uma das outras, mas blocos sonoros que se relacionam. Sobre Varèse, escreveu Adorno:

“Em que medida se poderia dominar a experiência de um mundo tecnificado, sem artesanato e sem crenças ingênuas na cientificação da arte, dá testemunho a obra de Edgar Varèse. Ele, que é engenheiro e que sabe seriamente algo da técnica, trouxe ao ato de compor aspectos tecnológicos, não no sentido de torná-lo infantilmente científico, mas a fim de proporcionar espaço para a expressão de tensões exatamente desse tipo que têm faltado à envelhecida nova música. Ele dirige a técnica para efeitos de pânico que ultrapassam a medida humana dos meios musicais.”

Edgar Varèse e Le Corbusier - Poéme Electronique - 1958


E sobre a possível infantilidade científica mencionada por Adorno, Schaeffer desmistifica em entrevista de 1986 concedida ao antropólogo Tim Hodgkinson muito do que se diz sobre a música concreta ser o prelúdio da música eletrônica. Em suas palavras:

“The real difference, the most lasting difference, between Musique Concrete and Electronic revolves around a basic disagreement as to the nature of the whole project. For Musique Concrete, the essential character of music as a human activity is such that the listening experience and the 'ear' are crucial things. For Electronic Music, the priority is the idea, the system, the perfection of control, of precise rationalization... to become scientific... “

(A real diferença entre Música Concreta e Eletrônica está em torno da distinção básica sobre a natureza de todo o sistema sonoro. Para a Música Concreta, a essência da música com atividade humana é tanta que a experiência de se ouvir música e simplesmente “ouvir” são cruciais. Para a Música Eletrônica, a prioridade é a ideia de sistema, do controle, da racionalização precisa... é se tornar científico)